Orixás e sincretismo dentro da Nação do Candomblé

Posted by Alberto Ebomi at 14:56 0 Comments

O texto a seguir fala sobre como e por que surgiu o sincrestimo do Orixás e os Santos Católicos dentro da nossa religião Nação Candomblé e Umbanda, pois esses mesmos santos, que haviam protegido os interesses dos negreiros e a vida de uma parte dos negros transportada, tiveram o bom senso de realizar em seguida um exame de consciência, do qual resultou uma troca de posição: passaram a proteger os escravos, ajudando-os a mistificar os seus
senhores.

Foto Orixás e sincretismo dentro da Nação do Candomblé

Orixás e Sincretismo

Talvez tivessem partilhado os remorsos tardios do Padre Bartolomeu de Lãs Casas, o qual, levado pela piedosa intenção de preservar as vidas dos índios caraíbas, tentativa, aliás, sem resultados, desempenhou, no século XVI, o papel de instigador do tráfico transatlântico de negros. Aliás, esse tráfico África, Europa já existia há bastante tempo. Espanha e Portugal abasteciam-se, ainda que modestamente, de escravos mouros e negros barbarescos do norte da África, ao longo da costa do Atlântico. Os países barbarescos do norte da África faziam precisamente mesmo, capturando os infiéis, neste caso os cristãos, e colocando esses cães a remar nos bancos das suas galeras.

Em contrapartida, os porões da galera estavam repletos de mouros. Mas, voltando aos santos do paraíso católico, é certo que eles ajudaram os escravos a lograr e a despistar os seus senhores sobre a natureza das danças que estavam autorizados a realizar, aos domingos, quando se reagrupavam em batuques por nações de origem. Em 1758, o Conde dos Arcos, sétimo vice-rei do Brasil, mostrava-se partidário de distrações dessa natureza, não por espírito filantrópico, mas por julgar útil que os escravos guardassem a lembrança de suas origens e não esquecessem os sentimentos de aversão recíproca que os levaram a se guerrear em terras da África.

Assim divididos, eles não se arriscariam a um levante em conjunto, como iriam faze-lo cinqüenta anos mais tarde contra os seus senhores. Estes últimos, vendo os seus escravos dançarem de acordo com os seus hábitos e cantarem nas suas próprias línguas, julgavam não haver ali senão divertimentos de negros nostálgicos. Na realidade, não desconfiavam que o que eles cantavam, no decorrer de tais reuniões, eram preces e louvações a seus orixás, a seus vodun, a seus inkissi. Quando precisam justificar o sentido dos seus cantos, os escravos declaravam que louvavam, nas suas línguas, os santos do paraíso. Na Verdade, o que eles pediam era ajuda e proteção aos seus próprios deuses.

Não se pode afirmar que já se tratava de sincretismo entre os deuses da África, por um lado, e os santos católicos, por outro, pois, no século XVIII, as características das divindades africanas eram ainda desconhecidas dos senhores e do clero português, enquanto os escravos não podiam também conhecer os detalhes da vida dos santos.

As primeiras menções às religiões africanas no Brasil são de 160, por ocasião das pesquisas do Santo Oficio da Inquisição, quando Sebastião Barreto denunciava o costume que tinham os negros, na Bahia, de matar animais, quando de luto... Para lavar-se no sangue, dizendo que a alma, então, deixava o corpo para subir ao céu. Por volta da Costa da Mina que fazia bailes às escondidas, com uma preta mestra e com altar de ídolos, adorando bodes vivos, untando seus corpos com diversos óleos, sangue de galo e dando a comer bolos de milho depois de diversas bênçãos supersticiosas...

É difícil precisar o momento exato em que esse sincretismo se estabeleceu. Parece ter-se baseado, de maneira geral, sobre detalhes das estampas religiosas que poderiam lembrar certas características dos deuses africanos. Pode parecer estranho, à primeira vista, que Xangô, deus do trovão, violento e viril tenha sido comparado a São Jerônimo, representado por um ancião calvo e inclinado sobre velhos livros, mas que é freqüentemente acompanhado, em suas imagens, por um leão docilmente deitado a seus pés. E como o leão é um dos símbolos de realeza entre os iorubás, são Jerônimo foi  comparado a Xangô, o terceiro soberano dessa nação.

A aproximação entre Obaluaê e São Lázaro é mais evidente, pois o primeiro é o deus da varíola e o corpo do segundo é representado coberto de feridas e abscessos. Iemanjá, mãe de numerosos outros orixás, foi sincretizada com Nossa Senhora da Conceição, e Nanã Buruku, a mais idosa das divindades das águas, foi comparada a Santa Ana, mãe da Virgem Maria.

Oiá-Iansã, primeira mulher de Xangô, ligada às tempestades e aos relâmpagos, foi identificada com Santa Bárbara. Segundo a lenda, o pai dessa santa sacrificou-a devido à sua conversão ao cristianismo, sendo ele próprio, logo em seguida, atingido por um raio e reduzir a cinzas. A relação entre o Senhor do Bonfim e Oxalá, divindade da criação, é mais dificilmente explicável, a não ser pelo imenso respeito e amor que ambos inspiram.

Na Bahia, São Jorge é identificado com Orixá Oxossi, deus dos caçadores, mas, no Rio de Janeiro, é ligado a ogum, deus da guerra, o eu é compreensível em relação aos dois orixás, pois São Jorge é apresentado nas gravuras como um valente cavaleiro, vestido em brilhante armadura, montado sobre um cavalo ricamente ajaezado em ferro, que bate no chão com as patas e caracola. Armado com uma lança, São Jorge da Capadócia Mata um dragão enfurecido, caça predileta do deus dos caçadores.

Para maior satisfação do deus dos guerreiros, no Rio de Janeiro, desde os tempos do Império, segundo Arthur Ramos, São Jorge aparecia nas procissões montado num cavalo branco, com honras de coronel e recebendo as continências da tropa à sua passagem. Na Bahia, porém, é com Santo Antônio que
Ogum vai ser sincretizado.

Esta aproximação entre Ogum Orixá , deus da guerra, e Santo Antônio parece surpreendente, pois o santo é geralmente representado com uma aparência suave e atraente, trazendo uma flor-de-lis na mão e carregando, em seus braços, o Menino Jesus. Foi, no entanto, cognominado o martelador dos heréticos por causa da extrema violência verbal que usava para fustigar os maus pensadores e os monges sacrílegos.

A chave do mistério dessa estranha associação nos é dada nas recordações das viagens feitas, em 1839, por Daniel P. Kidder: Uma frota o escrevia, comandado por luteranos, deixou a Franças em 595, com a intenção de conquistar a Bahia.

No caminho, os protestantes atacaram Argoim, uma ilhota ao largo da costa da África, pertencente aos portugueses, e, depois de se atirarem ao saque e à destruição, levaram entre outras coisas uma imagem de Santo Antônio. Logo que prosseguiram viagem, foram atacados por uma forte tempestade, o que causou a perda de vários navios.

Os que escaparam à tormenta foram acometidos pela peste, e durante essa provação, por ódio ao catolicismo, jogaram a imagem no mar, após terem-na mutilado com golpes de facão. O navio que transportava chegou a um porto de Sergipe, onde todos os que estavam a bordo foram presos.

Mandados para a Bahia, a primeira coisa que viram na praia foi à imagem que tanto haviam maltratado...

Os frades franciscanos levaram-na, em solene procissão, para o seu convento... Mas os frades, mal satisfeitos com a aparência velha e feia da imagem, substituíram-na por outra imagem, mais pomposa e elegante e que foi batizada com o mesmo, tendo, em princípio, herdado sua virtudes...

Santo Antônio foi alistado, como soldado, no Forte da Barra, que tem o seu nome. Como soldado, recebeu regularmente o soldo até que foi promovido ao posto de capitão, em 16 de julho de 1705, pelo governador Rodrigo da Costa. A Cópia da ordem, dada por aquele governador, está publicada no livro de Kidder e determina que o procurador do convento está autorizado a receber o montante deste soldo de capitão. Durante a última guerra mundial, Santo Antônio foi promovido a major.

Os franciscanos da Bahia conservam o uniforme de gala oferecido por uma rica devota. Debret relata as horárias militares concedidas a santo Antônio nas diferentes províncias do Brasil. Fala, talvez com exagero, do seu título de marechal dos exércitos do rei João VI e de comendador da Orem de Cristo na Bahia, de coronel e grã-cruz da Ordem de cristo no Rio de Janeiro, ou mesmo, mais modestamente, de simples cavalheiro de cristo no Rio Grande.

Ao que parece, certos membros do clero católico julgaram conveniente favorecer esse sincretismo, como o Padre Boucher havia sugerido, na própria África, ao descrever a estátua da Iangbá, mulher de Oxalá, nos seguintes termos: esta deusa que muito se parece com a Santa Virgem, pois tanto uma como a outra salvaram os homens.

Os santos católicos, ao se aproximarem dos deuses africanos, tornavam-se mais compreensíveis e familiares aos recém-convertidos. É difícil saber se essa tentativa contribuiu efetivamente para converter os africanos, ou se ela os encorajou na utilização dos santos para dissimular as sua verdadeiras crenças.

 É o que Nina Rodrigues indagava em 1890, numa época em que o sincretismo entre orixás e santos católicos ainda estava em formação e onde a equivalência entre eles era flutuante e variável de acordo com os terreiros.

Existia ainda, na época, a tendência de se identificar Xangô com Santa  Bárbara, como se vê até hoje em Cuba, apesar da diferença de sexo, pois o argumento das relações com o trovão parecia dominar. Nina Rodrigues escrevia, então: Aqui na Bahia, como em todas as missões de catequese dos negros africanos, seja ele católico, protestante ou maometano, longe de o negro converter-se ao catolicismo, protestantismo ou ao islamismo, acontece, ao contrário influenciá-los com seu fetichismo e adapta-los ao animismo do negro.

Basta, para compreender o fenômeno, assistir aos serviços divinos nos templos protestantes do Harlem, em Nova York, ou mesmo na África, aos cultos de numerosas seitas mais ou menos sincréticas, como a dos querubins e Serafim, onde os fiéis são visitados e possuídos, violentamente algumas vezes, pelo Espírito Santo.

Nos candomblés, as duas religiões permanecem separadas, e Nina Rodrigues constatava que, em fins do último século, a conversão religiosa não fez mais que justapor as exterioridades muito mal compreendidas do culto católico às suas crenças e práticas fetichistas que em nada se modificaram.
Concebem os seus santos ou orixás e os santos católicos como de categoria igual, embora perfeitamente distintos.

Os africanos escravizados se declaravam e aparentavam convertidos ao catolicismo; as práticas fetichistas puderam manter-se entre eles até hoje quase tão estremes de mescla como na África. Depois, as viagens constantes para a África com navegação e relações comerciais diretas...

Facilitaram a reimportação de crenças e práticas, porventura um momento esquecido ou adulterado.
Com o passar do tempo, com a participação de descendentes de africanos e de mulatos Ada vez mais numerosa, educada num igual respeito pelas duas religiões, tornaram-se eles tão sinceramente católicos quando vão à igreja, como ligados às tradições africanas, quando participam, zelosamente, das cerimônias de Candomblé.


fonte: Pierre Fatumbi Verger


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