Candomble e as primeiras casas de Santo do Brasil

Posted by Alberto Ebomi at 20:29 0 Comments
Esse texto fala sobre a nossa rica cultura do Candomblé e como surgiu as primeiras casa de santo no Brasil (terreiros de axé), o artigo é rico em conhecimentos e retirado de uma fonte que serviu de muita orientação ao povo de santo como um todo, independentemente de Nação (Jejê, Angola, Ketu, Efon).

A instituição de confrarias religiosas, sob a égide da Igreja Católica, separava as etnias africanas. Os pretos de Angola formavam a Venerável Ordem Terceira do Rosário de Nossa Senhora das Portas do Carmo, fundada na Igreja Nossa Senhora do Rosário do Pelourinho. Os daomeanos (gêges) reuniamse sob a devoção de Nosso Senhor Bom Jesus da Necessidade e Redenção dos Homens Pretos, na Capela do Corpo Santo, na Cidade baixa.

Os nagôs, cuja maioria pertencia à nação Ketu, formavam duas irmandades: uma de mulheres, a de Nossa Senhora da Boa Morte; outra reservada aos homens, a de Nosso Senhor dos Martírios.

O Candomblé e as primeiras casas de Santo

Essa separação por etnias completava o que j´s havia esboçado a instituição dos batuques do século precedem e permitia aos escravos, libertos ou não, assim reagrupados, praticar juntos novamente, em locais situados fora das igrejas, o culto de seus deuses africanos. Varias mulheres enérgicas e voluntariosas, originárias de Kêto, antigas escravas libertas, pertencentes à Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte da Igreja da Barroquinha, teriam tomado a iniciativa de criar um terreiro de candomblé chamado Ìyá Omi À Àirá Intil, numa casa situada na Ladeira do Berquo, hoje Rua Visconde de  taparica, próxima à Igreja da Barroquinha.


Iyalussô Danadana e Iyanassô Akalá


As versões sobre o assunto são numerosas e variam bastante quando relatam as diversas peripécias que acompanharam essa realização. Os nomes dessas mulheres são eles mesmos controversos. Duas delas, chamadas Iyalussô Danadana e Iyanassô Akalá, segundo uns, e Iyanassô Oká, segundo outros,
auxiliadas por um certo Babá Assiká, saudado como Essa Assiká no padê do qual falaremos mais tarde, teriam sedo as fundadoras do terreiro de À Àirá Intilé. Iyalussô Danadana, segundo consta, regressou à África e lá morreu. Iyanassô teria, pelo seu lado, viajado a Kêto, acompanhada por Marcelina da Silva.

Não se sabe exatamente se esta era sua filha de sangue, ou filha espiritual, isto é iniciada por ele no culto dos orixás, ou ainda, se tratava de uma prima sua. As opiniões sobre o assunto são controversas e tornam-se objeto de eruditas discussões, estando, porém todos de acordo em declarar que seu nome de iniciada era Obatossí.

Marcelina-Obatossí fez-se acompanhar nessa viagem por sua filha Madalena. Após sete anos de permanência em Kêto, o pequeno grupo voltou acrescido de duas crianças que Madalena tivera na África, e grávida de uma terceira, Claudiana, que será por sua vez mãe de Maria Bibiana do espírito Santo, Mãe Senhora, Oxum Miua, da qual tive a insigne honra de tornar-se filho espiritual.

Iyanassô e Obatossí trouxeram de Kêto, além dessas filhas e netas, um africano chamado Bangboxé, que recebeu na Bahia o nome de Rodolfo Martins de Andrade, e, no padê ao qual me referi acima, é saudado como Essa Obitikô. O terreiro situado, quando de sua fundação, por trás da Barroquinha mudou-se por diversas vezes e, após haver passado pelo Calabar na Baixa de São Lázaro, instalou-se sob o nome de Ilê Iyanassô na Avenida Vasco da Gama, onde ainda hoje se encontra, sendo familiarmente chamado de Casa Branca do Engenho Velho, e no qual Marcelina Obatossí tornou-se a mãe-de-santo após a morte de Iyanassô.

Verifica-se ligeira divergência na versão dada por Dona Menininha relativa às origens dos terreiros provenientes da Barroquinha. O nome de Iyalussô danadana não é mencionado. A primeira mãe-desanto teria sido Iya Akalá (distinta de Iyanassô), que, tendo regressado à África, aí mesmo veio a falecer. A segunda mãe-de-santo teria sido Iyanassô Oká (e não Akalá). Não se sabe com precisão a data de todos esses acontecimentos, pois, no início do século XIX, a religião católica era ainda a única autorizada.

As reuniões de protestantes eram toleradas só para os estrangeiros; o islamismo, que provocara uma série de revoltas de escravos entre 1808 e 1835, era formalmente proibido e perseguido com extremo rigor; os cultos aos deuses africanos eram ignorados e passavam por práticas supersticiosas. Tais cultos tinham um caráter clandestino e as pessoas que neles tomavam parte eram perseguidas pelas autoridades.

Por volta de 1826, a polícia da Bahia havia, no decorrer de buscar efetuadas com o objetivo de prevenir possível levantes de africanos, escravos ou livres, na cidade ou nas redondezas, recolhido atabaques, espanta-moscas e outros objetos que pareciam mais adequados ao candomblé do que a uma sangrenta revolução. Nina Rodrigues refere-se a certo quilombo, existente nas matas de Urubu, em Pirajé, o qual se mantinha com o auxílio de uma casa de fetiche da vizinha, chamada a Casa do Candomblé.

Um artigo do Jornal da Bahia, de 3 de maio de 1855, faz alusão a uma reunião na casa Ilê Iyanassô: foram presos e colocados à disposição da policia Cristóvão Francisco Tavares, africano emancipado, Maria Salomé, Joana Francisco, Leopoldina Maria da Conceição, Escolástica Maria da Conceição, crioulo livres; os escravos Rodolfo Araújo Sá Barreto, mulato; Melônio, crioulo, e as africanas Maria Tereza, Benedita, Silvana...

Que estavam no local chamado Engenho Velho, numa reunião que chamava de candomblé. É curioso encontrar nesse documento o nome, pouco comum, de Escolástica Maria da Conceição, o mesmo com o qual seriam batizados, trinta e cinco anos mais tarde, Dona menininha, a famosa mãe-de-santo do Gantois, cujos pais, a essa época, sem dúvida, frequentavam ou faziam parte do terreiro de Ilê Iyanassô, onde houve essa ação policial.

Com a morte de Marcelina-Obatossí, foi Maria Júlia Figueiredo, mnike, Iyálódé, também chamada Erelú na sociedade dos gld, que se tornou a nova mãe-de-santo. Isso provocou sérias discussões entre os membros mais antigos do terreiro de Ilê Iyanassô, tendo como conseqüência a criação de dois
novos terreiros, originários do primeiro; Júlia Maria da Conceição Nazaré, cujo orixá era Dada Báayànì Àjàkù, fundou um terreiro chamado Iyá Omi À Iyámase, no Alto do Gantois, cuja mãe-desanto atual, e quarta a ocupar este lugar, é Dona Escolástica Maria da Conceição Nazaré, Menininha, a última das famosas mães-de-santo da antiga geração.

Segundo Menininha, Júlia Maria da Conceição Nazaré, fundadora do Terreiro do Gantois, teria sido a irmã-de-santo, e não filha-de-santo, de Marcelina-Obatossí. Uma personagem importante nos meios do candomblé, chamada Babá Adetá Okanledê, consagrada a Oxossi Orixá e originária de Kêto, teria tido um papel importante quando foi criado o Terreiro do Gantois, Iyá Omi À Ìyámase.

Eugênia Ana Santos, Aninha Obabii, cujo orixá era Xangô, auxiliada por Joaquim Vieira da Silva, basanya, um africano vindo do Recife e saudado Essa Oburô, no padê ao qual já fizemos alusão, fundaram outro terreiro saído do Ilê Iyanassô e chamado Centro Cruz Santa do Axé ter funcionado provisoriamente no lugar denominado Camarão, no bairro do Rio Vermelho. Sob o impulso dessa grande mãe-de-santo, o novo terreiro rapidamente se igualou aos outros, e talvez tenha mesmo ultrapassado em reputação os outros candomblés kêto. Maria da Purificação Lopes, Tia Badá Olufandei, sucedeu, em 1938, a Aninha e deixou, em 1941, o encargo do terreiro a Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora Oxum Miua, filha espiritual de Aninha Obabii.
 
Pelo jogo complicado das filiações, Senhora era bisneta de Obatossí por laços de sangue e sua neta pelos laços espirituais da iniciação. Em outros termos, Iyanassô Akalá (ou Oká) foi, na geração anterior, ao mesmo tempo a bisavó e a trisavó de Senhora.

Mas as coisas tornaram-se mais complicadas ainda quando Senhora recebeu, em 1952, o título honorífico de Iyanassô pelo Aláàfin Òyó da Nigéria, através de uma carta da qual tivemos a honra de ser opartador. Senhora, abolindo o tempo passado graças a essa distinção, tornou-se espiritualmente a fundadora dessa família de terreiros de candomblé da nação Kêto, na Bahia, todos originários da Barroquinha. Confirmou tão elevada posição, em 1962, quando foi presidir, seguida de seus ogãs, o Axexê, ou cerimônia mortuária, da saudade e mais que centenária mãe-de-santo do Ilê Iyanassô da Casa Branca do Engenho Velho, Maximiana Maria da Conceição, Tia Massi Oinfunké.

Essa dignidade recebida da África por Senhora provocou, diga-se de passagem, comentários e rumores, os fuxicos que agitam e apaixonam as pessoas que pertencem a esse pequeno mundo cheio de tradição, onde as questões de etiqueta, de direitos, fundamentadas sobre o valo dos nascimentos espirituais, de primazias, de gradação nas formas elaboradas de saudações, de prosternações, de ajoelhamentos são observadas, discutidas e criticadas apaixonadamente; nesse mundo onde o beijamão, as curvaturas, as deferentes inclinações de cabeça, as mãos ligeiramente balançadas em gestos abençoadores representam um papel tão minucioso e docilmente praticado como na corte do Rei Sol.

Os terreiros de candomblé (casa de Santo) são os últimos lugares onde as regras do bom-tom reinam ainda soberanamente. Após o desaparecimento da saudosa Mãe Senhora, em 1967, duas novas mães-de-santo lhe sucederam à frente do Axé Opô Afonjá. A atual, Maria Estella de Azevedo Santos, dksyòdé, retomando a tradição de Iyanassô e de Obatossí, realizou uma viagem às fontes, na Nigéria e no ex-Daomé. Outros terreiros foram criados, originários do Axé Opô Afonjá, formando uma terceira, ou mesmo uma quarta geração dessa família de candomblés que nasceu na barroquinha.

 Citemos o Axé Opô Aganju, de Balbino Daniel de Paula, baraim, que viajou para África e ai participou das festas para Xangô, com perfeita naturalidade e como se sua família não houvesse deixado aquele país há várias gerações. Recebeu aí novo nome africano, Gbbagúnlè, o rei desce sobre a terra. Indiquemos também o terreiro Ilê Òrìànlá Funfun, instalado em Guarulhos, São Paulo, pelo esforços de Idérito do Nascimento Corral, filho-de-santo de menininha do Gantois. Este pai-de-santo fez, em campainha de um dos seus filhos-de-santo, Tasso Gadzanis, de Ogum, várias peregrinações à África, onde recebeu de Olufn, rei de Ifn, o título invejável de Àwòrò Òàlúfón.

No Estado do Rio de Janeiro instalaram-se números candomblé, originários dos três terreiros kêto da Bahia. Citemos, entre os mais prestigiosos, o Axé Opô Afonjá em Coelho da Rocha, ligado àquele de mesmo nome, estabelecido na Bahia pela célebre Aninha; em Miguel Couto, o terreiro de Nossa Senhora das Candeias, fundado por Nitinha de Oxum, Filha-de-santo de Tia Massi da Casa Branca da Bahia. Tudo isso mostra a vitalidade, o crescimento e a multiplicação dos terreiros de candomblé originários da Barroquinha. Existem numerosos outros terreiros que seguem o ritual kêto, como o de Ilê Mariolaje, no Matatu, mais conhecido sob o nome de Alakêto, cuja mãe-de-santo atual, Olga Francisca Regis, yafúnmi, já várias vezes à África. Citemos, ainda, o terreiro de Ilê Ogunjá (casa de Ogum), também no matatu, do falecido pai-desanto Procópio Xavier de Souza, Ògúnjbi.

Ao lado dos terreiros nagô-kêto, há na Bahia os da nação Ijexá. O mais digno dentre eles é o de Eduardo Ijexá, ou Eduardo Antônio Mangabeira, meio-irmão de Otávio Mangabeira, ex-governador do Estado da Bahia. Durante a década de 50, ele enviou cartas redigidas em perfeito iorubá a seu distante parente, o rei de Ijexá, que as recebeu de nossa mãos bastante emocionado. Limitamos o tema desta obra aos orixás iorubás; portanto não falaremos dos terreiros cujas origens estão situadas em outras regiões da África.

Assinalamos, entretanto, que o ritual nagô parece ter tido uma grande influência sobre os que são realizados nesses outros terreiros. Não se pode excluir também a possibilidade de que certas influências bantus se tivessem produzido entre os nagôs, levando em conta que foram trazidos, em grande número, escravos do Congo e de Angola até os fins do século XVII para todo o Brasil.


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